Saturday, September 15, 2007

Para dizer que não falei de coisas boas...

Lendo no site da BBC, noto uma importante notícia sobre a pobreza brasileira: o rendimento do pobre em 2006 é o maior em dez anos, isso quer dizer que o pobre conseguiu recuperar o poder aquisitivo que fora perdido durante o período de 1996 a 2006.

"O rendimento médio mensal dos trabalhadores que estavam na metade de baixo da pirâmide foi de R$ 267,00 em 1996, R$ 257,00 em 1999 e R$ 293,00 em 2006.

Na média de toda a massa de trabalhadores, incluindo os que ganham mais, o rendimento do ano passado é o maior desde 1999, mas ainda é inferior ao de 1996, início do período escolhido pelos pesquisados do IBGE para a comparação.

A série mostra que o rendimento médio mensal real do trabalho de pessoas com mais de 10 anos alcançou um pico em 1996, quando era de R$ 975,00. Começou a cair desde então, ficou estável entre 2003 e 2004 e começou a subir a partir de 2005.

Entre 2005 e 2006, passou de R$ 824,00 para R$ 883,00, uma alta de 7,2%. Somando os dois últimos anos, o aumento é de 12,1%.

“O ganho real do salário mínimo de 13,3% em 2006 frente a 2005 foi um dos fatores determinantes para o resultado observado em termos de crescimento dos rendimentos médios de trabalho no período”, diz o relatório."

Além disso, a Pesquisa por Amostragem de Domicílios apresentou uma redução do índice de Gini, o que mede a concentração de renda.

"O índice de 0,541 da distribuição de rendimentos de 2006 é o menor desde 1981, “mas ainda indica forte concentração dos rendimentos de trabalho”."

Ou seja, apesar de toda a robalheira, apesar de todos os problemas internos referentes a corrupção, a economia brasileira vai bem, obrigado.

Uma questão importante que surge é: e a eficiência do processo?! É boa ou ruim?! Segundo a coordenadora do IBGE, Márcia Quintslr, temos que "recuperação do rendimento para as pessoas com salários mais baixos "decorreu, entre outros fatores, dos diversos aumentos reais do salário mínimo observados no período". Indagada se esses resultados teriam relação com os benefícios do programa Bolsa Família, ela lembrou que esses dados se referem ao rendimento do trabalho, mas admitiu que os efeitos indiretos do programa na economia podem ter contribuído para o resultado."

Será?!

Wednesday, September 5, 2007

As “MSIs” Estatais (e com muito mais cacife)

O que podemos esperar de um ambiente de juros internacionais baixos por longo período, grandes players com câmbio desvalorizado artificialmente, o maior deles com déficit em transações correntes crescente, acúmulos gigantescos de reservas e preço do petróleo em alta? E se um dos maiores acúmulos de reservas vier de uma ditadura? Lembrando ainda que a Opep não é formada por exemplos de democracia.

Deveríamos acreditar, no mínimo, em grandes mudanças estruturais em todo o mundo. Economistas de boa estirpe, que levam mais a sério a escassez, já antecipam uma nova deterioração das finanças mundiais. A atual crise no mercado de crédito imobiliário parece “fichinha” perto do que pode dar as caras nos próximos anos. Estou falando dos Fundos de Riqueza Soberana (Sovereign Wealth Funds), constituídos por capital estatal, sendo boa parte formada por reservas internacionais acumuladas nestes anos de farto influxo de capital em países emergentes. E os problemas não provem apenas de quem investe este dinheiro.

Se no Brasil já discutimos o custo de oportunidade de se acumular mais que R$ 150 bilhões em reservas, imaginem países como China e Japão. Lá, o necessário para dar credibilidade e “colateral” aos investimentos estrangeiro já passou do ótimo. Era de se esperar um apetite por retornos maiores que 5% ao ano. Segundo estudo do Morgan Stanley, em 7 anos, estes fundos estarão movimentando mais de US$ 10 trilhões, muito além do movimentado por hedge funds ou fundos de private equity.

Sabemos que governantes têm objetivos (políticos) que diferem, em muitos casos, dos objetivos de um acionista “privado”. Usar (desperdiçar?) bilhões de dólares em investimentos externos podem trazer instabilidades preocupantes e de repercussões mundiais, dada esta divergência de escopo. Podemos imaginar ofertas hostis de fundos russos por empresas norte-americanas. Sauditas majoritários em empresas britânicas. Apesar de fantasioso, petrodólares da Venezuela tentando comprar petrolíferas texanas!

Não é de arrepiar a possibilidade de estatização dos meios de produção pela própria via capitalista? Muito alarmismo? Não sei. Afinal, o que aponta para uma reversão destes fatos? Os grandes acúmulos de reservas, que abastecem estes fundos, vêm tanto do alto consumo norte-americano quanto da política cambial dos acumuladores. Apesar da crise atual, dados do Departamento de Comércio dos EUA mostram que os gastos do consumidor subiram mais do que o esperado, em julho. Se a percepção for de que a restrição de liquidez é passageira e rápida, o padrão de consumo não tem porque mudar. Se não bastasse, a Ásia parece ter retornado à era mercantilista após a crise de 1997 – para mim, uma lição mal aprendida – e nada a faz mudar de curso, muito menos a pressão de Washington. Se vier, será lenta e quando convier.

Vindo de governos, minha máxima diz que, cedo ou tarde, as coisas começarão a feder. Apesar de cético quanto à efetividade da regulação financeira, acredito que este seja o caminho menos doloroso para este tipo de capitalismo de Estado crescente. Em se tratado de governos, caberia a órgão supranacionais (FMI ou BIS) colocá-la em prática. Assim como fundos hedge, os SWF são pouco transparentes em suas estratégias e em sua administração. Apesar disso, vale ressaltar que alguns destes fundos optam por não ter direito a voto na participação das empresas adquiridas, como foram os casos da China no Blackstone e o Government Investment Corporation, de Cingapura, em alguns de seus negócios recentes.

Mesmo assim, dá-me calafrio: falta de transparência mais governo mais trilhões de dólares. Ficar na mão do governo brasileiro já nos traz problemas suficientes. Aumentar a exposição a desvarios chineses, russos já não seria demais?